Antônio Márcio Buainain
Vamos conversar sobre biodiversidades e bioeconomias do Brasil?
ARTIGOS
Nos dias 2-4 de junho participei da FAPESP Week, em Londres, um encontro que reuniu pesquisadores brasileiros e britânicos de diferentes áreas do conhecimento para discutir temas que vão da saúde pública à inteligência artificial, da agricultura à energia, das mudanças climáticas à biodiversidade, e promover as relações entre pesquisadores/instituições brasileiras e britânicas. Uma das experiências mais enriquecedoras do evento foi justamente ouvir apresentações sobre assuntos que pouco têm a ver com minha área de pesquisa — e, em alguns casos, sequer figuram entre meus interesses habituais.
Em tempos de agendas sobrecarregadas, pressão por produtividade e crescente especialização, tendemos a circular cada vez mais dentro de territórios intelectuais familiares. Ganhamos profundidade, mas frequentemente perdemos amplitude. Sem perceber, passamos a enxergar o mundo através de lentes cada vez mais estreitas. Eventos como a FAPESP lembram-nos de que os grandes desafios contemporâneos raramente respeitam fronteiras disciplinares e que, muitas vezes, as perguntas mais interessantes surgem justamente nos espaços de interseção entre diferentes áreas do conhecimento.
Foi nesse contexto que participei das conversas sobre biodiversidade, bioeconomia e economia circular. As discussões reforçaram a percepção de que estamos diante de temas complexos, que exigem diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e dificilmente se acomodam em explicações simples.
Esticando a conversa para além da Amazônia
Quem acompanha esta coluna sabe que temos conversados –e questionado— nossa tendência de transformar fenômenos complexos em narrativas simples. Fazemos isso na política, na economia, na educação, na agricultura e, naturalmente, também nos debates sobre biodiversidade e bioeconomia.
No debate internacional, biodiversidade brasileira tornou-se sinônimo de Amazônia. Da mesma forma, bioeconomia costuma ser associada quase exclusivamente a produtos florestais, cadeias da sociobiodiversidade e atividades desenvolvidas em comunidades tradicionais. A Amazônia é, sem dúvida, um patrimônio ambiental extraordinário e as cadeias da sociobiodiversidade possuem enorme relevância econômica, social, cultural e ambiental. Mas reduzir a biodiversidade brasileira à Amazônia é tão inadequado quanto tentar compreender a economia britânica observando apenas a City de Londres ou a americana pelo Vale do Silício. A City e o Vale são importantes, mas não esgotam a diversidade econômica do Reino Unido e dos Estados Unidos.
O Brasil abriga seis grandes biomas, cada um com características ecológicas próprias, histórias de ocupação distintas, diferentes formas de uso dos recursos naturais, desafios específicos de conservação e oportunidades particulares de desenvolvimento. Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampas também concentram biodiversidade valiosa, conhecimentos tradicionais, recursos genéticos e potencial econômico frequentemente subestimado.
As implicações dessa constatação são profundas. Diferentes biomas demandam estratégias próprias de conservação e desenvolvimento, ampliando a diversidade de trajetórias possíveis para a bioeconomia brasileira.
O Brasil já era bioeconomia antes da bioeconomia
A própria ideia de bioeconomia merece um olhar mais cuidadoso. Nos últimos anos, o termo ganhou enorme popularidade e, muitas vezes, transmite a impressão de que estamos diante de uma fronteira recém-descoberta do desenvolvimento econômico. No caso brasileiro, porém, a história é mais complexa.
Muito antes de a expressão entrar no vocabulário das políticas públicas, o país já construía riqueza, empregos, exportações e capacidades produtivas a partir do uso de recursos biológicos. Foi também nesse processo que se formaram algumas das contradições que permanecem até hoje: desigualdades sociais, conflitos fundiários, formas predatórias de exploração dos recursos naturais e tensões recorrentes entre conservação e desenvolvimento.
Do pau-brasil ao açúcar, do café à borracha, das florestas plantadas ao etanol, da soja às proteínas animais, a história econômica brasileira está profundamente associada ao uso de recursos biológicos. Em alguns momentos predominou a extração direta; em outros, atividades que exigiram investimentos, organização produtiva, conhecimento técnico e inovação.
Não se trata de romantizar essa trajetória nem de tomá-la como modelo para o futuro. Trata-se de reconhecer que a relação entre biodiversidade e desenvolvimento acompanha a própria formação histórica do país, combinando oportunidades, inovação, conflitos e contradições.
Existem bioeconomias associadas à floresta em pé, à agricultura moderna, à indústria, à energia e à saúde. Existem atividades intensivas em tecnologia e outras fortemente apoiadas em conhecimentos tradicionais. Não existe uma única biodiversidade e, por isso, faz mais sentido falar em bioeconomias brasileiras do que em uma única bioeconomia.
Biodiversidade como infraestrutura essencial para o desenvolvimento
Um dos pontos que procurei destacar nas discussões realizadas em Londres foi a necessidade de mudar a forma como pensamos a biodiversidade. Frequentemente ela é apresentada como patrimônio natural a ser conservado ou como fonte de novos produtos e oportunidades econômicas. Ambas as perspectivas são importantes, mas insuficientes. Precisamos compreendê-la também como ativo estratégico para o desenvolvimento.
A comparação pode parecer estranha. Quando falamos em infraestrutura, normalmente pensamos em estradas, portos, energia, telecomunicações ou saneamento. Mas a biodiversidade é uma infraestrutura que desempenha funções cada vez mais essenciais para o desenvolvimento: a regulação dos ciclos hidrológicos, a proteção dos solos, a polinização, a manutenção da qualidade da água, a regulação climática e a própria resiliência dos sistemas produtivos dependem, em maior ou menor grau, da integridade dos ecossistemas. Sua importância vai muito além da agricultura e afeta, ainda que desigualmente, todas as atividades, espaços e grupos sociais.
A diferença é que percebemos imediatamente o impacto da queda de uma ponte ou da falta de energia elétrica. Já a degradação dos sistemas naturais costuma ser gradual e silenciosa. Quando seus efeitos se tornam evidentes, os custos econômicos, sociais e ambientais geralmente já são elevados.
O Brasil já começa a experimentar algumas dessas consequências. Secas prolongadas, eventos climáticos extremos mais frequentes, alterações nos regimes de chuva e maior vulnerabilidade de atividades produtivas mostram que os serviços prestados pelos ecossistemas não podem ser tratados como garantidos. Embora seja simplista atribuir esses fenômenos a uma única causa, torna-se cada vez mais difícil ignorar a relação entre degradação ambiental, mudanças climáticas e perda de resiliência dos sistemas naturais.
Essa mudança de perspectiva ajuda a superar uma falsa oposição que frequentemente domina o debate público: a ideia de que conservação e desenvolvimento seriam objetivos incompatíveis. Se a biodiversidade constitui parte da infraestrutura que sustenta a produção, a inovação e o bem-estar, a questão deixa de ser quanto desenvolvimento estamos dispostos a sacrificar para conservá-la e passa a ser quanto desenvolvimento conseguiremos sustentar se continuarmos degradando os sistemas naturais dos quais dependemos.
Talvez essa seja uma das conversas mais importantes do nosso tempo. Não para opor conservação e desenvolvimento, mas para compreendê-los como dimensões complementares de uma mesma estratégia de longo prazo.
Oportunidades, desafios e contradições
Ouvimos muito que a biodiversidade representa uma oportunidade extraordinária para o desenvolvimento do Brasil. A afirmação é verdadeira. Novos alimentos, medicamentos, cosméticos, biomateriais, fontes de energia e inúmeras outras aplicações podem gerar riqueza, empregos e inovação. Mas existe uma diferença importante entre potencial e realidade.
Decretos, discursos e boas intenções não geram desenvolvimento. Entre o potencial biológico e os benefícios econômicos e sociais existe um longo caminho que envolve pesquisa, inovação, investimentos, instituições e governança. Produzir conhecimento é indispensável — e a FAPESP tem dado contribuição importante nesse campo—, mas não suficiente. É preciso criar condições para transformar conhecimento em produtos, processos, negócios e oportunidades concretas para as populações dos diferentes territórios.
Essa dimensão é particularmente importante porque a biodiversidade não é apenas patrimônio ambiental. Para milhões de pessoas, ela também constitui a base de seus meios de vida. O desafio não é apenas conservar a biodiversidade, mas fazê-la contribuir para melhorar as condições de vida das populações que dela dependem. É justamente aí que surgem algumas das tensões mais difíceis do debate contemporâneo, e a questão passa a ser conciliar proteção ambiental e geração de renda, interesses locais e preocupações globais, conhecimento tradicional e ciência moderna, uso econômico e preservação dos recursos naturais.
A realidade costuma ser menos confortável do que os slogans. O desenvolvimento pode gerar pressões ambientais. A conservação pode criar oportunidades econômicas, mas também impor restrições. A inovação pode reduzir impactos ambientais ou ampliá-los. Os resultados dependem menos de soluções universais e mais da capacidade de construir instituições capazes de administrar interesses legítimos, mas frequentemente conflitantes.
Construindo as bioeconomias do futuro
As discussões realizadas em Londres reforçaram uma percepção importante: embora o interesse pela biodiversidade brasileira seja enorme, ainda existem muitas perguntas em aberto. A boa notícia é que uma agenda de pesquisa robusta já está em construção, envolvendo universidades, centros de pesquisa, agências de fomento e organizações internacionais. Mas a complexidade do tema exige avanços adicionais, mobilizando mais grupos, instituições, estados e o governo federal.
Ainda precisamos desenvolver melhores formas de medir o valor econômico, social e ambiental da biodiversidade; compreender os fatores que determinam o sucesso ou fracasso das diferentes bioeconomias; avaliar impactos, distribuir benefícios de forma mais equilibrada e construir mecanismos de governança capazes de conciliar conservação, inovação e desenvolvimento.
O Brasil possui condições excepcionais para contribuir para essa agenda. Não apenas por sua riqueza biológica e competência científica e institucional acumulada, mas pela oportunidade de ajudar a responder uma das questões centrais do século XXI: como transformar a extraordinária diversidade biológica do país em múltiplas trajetórias de desenvolvimento, sem comprometer os sistemas naturais que as tornam possíveis?
Não posso encerrar esta conversa sem agradecer à FAPESP pela iniciativa e pelo convite, e às professoras Camila Veneo C. Fonseca (IE/Unicamp), Maria Beatriz Machado Bonacelli (IG/Unicamp) e Maria Sylvia Macchione Saes (FEA/USP), cujas contribuições enriqueceram minha participação no evento e esta reflexão.
*Antônio Márcio Buainain é membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor Titular do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Economia Aplicada, Agrícola e Meio Ambiente (CEA/IE/Unicamp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED).
Sobre o CCAS
O Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo (SP), com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.
O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.
Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.
A agricultura, por sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. Não podemos deixar de lembrar que a evolução da civilização só foi possível devido à agricultura. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa, assim como a larga experiência dos agricultores, seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça. Mais informações no website: Link. Acompanhe também o CCAS nas redes sociais:
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ARTIGOS
Assédio moral e riscos psicossociais: o perigo de dirigir organizações sem freios
Nas últimas semanas e meses, muitas pessoas viram vídeos, postagens, comentários e opiniões sobre riscos psicossociais nas organizações. O tema ganhou espaço no mundo corporativo e institucional diante da necessidade de tratar fatores capazes de contribuir para adoecimentos relacionados ao trabalho dentro da lógica do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e do Programa de Gerenciamento de Riscos.
Como ocorre com todo tema novo, surgiram dúvidas legítimas, mas também interpretações apressadas. Alguns passaram a dizer que agora “tudo será assédio”. Outros afirmaram que a norma é inaplicável. Há quem trate o assunto como mera burocracia. Há quem o veja apenas como ameaça. Há também quem diga que ninguém mais poderá cobrar metas, exigir desempenho ou exercer liderança.
Mas talvez o primeiro cuidado que precisamos ter seja este: não decidir sobre um tema complexo a partir de uma leitura simples demais.
Daniel Kahneman, ao lado de Amos Tversky, demonstrou que grande parte das nossas decisões não nasce de uma análise profunda, lenta e cuidadosa. Muitas vezes, decidimos por atalhos. Usamos aquilo que já conhecemos. Repetimos interpretações familiares. Procuramos respostas rápidas porque pensar com profundidade exige energia.
Diante de um tema novo, o cérebro humano tende a perguntar: “com o que isso se parece?“. E, a partir daí, tenta encaixar o novo dentro de uma gaveta antiga.
O problema é que nem todo fenômeno novo cabe bem em gavetas antigas.
Durante muito tempo, aprendemos a olhar para o adoecimento mental no trabalho quase sempre como problema individual. A conclusão rápida era: “a pessoa não aguentou a pressão“. Em outras situações, olhamos apenas pela lente do conflito pessoal: “isso é problema entre chefe e subordinado“. Pela lente jurídica, reduzimos tudo a reparação individual e responsabilização do agressor. Pela lente administrativa, surgem respostas como: “isso é exagero“, “isso não se aplica aqui“, “é mais uma obrigação” ou “agora ninguém pode cobrar nada“.
Todas essas leituras podem enxergar uma parte do problema. Mas nenhuma delas, sozinha, enxerga o fenômeno inteiro.
Os riscos psicossociais relacionados ao trabalho exigem uma mudança de pergunta. Não se trata de negar a responsabilidade individual, nem de transformar toda cobrança em assédio moral. Trata-se de compreender que a forma como o trabalho é organizado, liderado, comunicado, cobrado e controlado pode aumentar ou reduzir riscos de sofrimento, conflito, adoecimento, afastamento e perda de desempenho.
A evolução da proteção no trabalho sempre exigiu essa mudança de olhar. Durante muito tempo, quando acontecia um acidente, a pergunta mais comum era: “o trabalhador errou?“. Depois, aprendemos a fazer perguntas melhores: o equipamento era seguro? Havia treinamento? Havia manutenção? A meta era compatível com o tempo disponível? A equipe era suficiente? A liderança pressionou de modo inadequado? O ambiente permitia uma decisão segura?
Com os riscos psicossociais acontece algo semelhante.
Pensemos nos carros.
Hoje, um motorista pode ser excelente. Pode ter experiência, atenção, responsabilidade e domínio da direção. Mesmo assim, ninguém diria que, por ele ser bom motorista, o carro não precisa de freios eficientes, cinto de segurança, airbag, controle de estabilidade, pneus adequados, revisão periódica e sinalização no painel.
A indústria automobilística evoluiu porque entendeu uma coisa essencial: segurança não pode depender apenas da habilidade do motorista. O sistema precisa ser desenhado para reduzir danos, prevenir falhas e proteger vidas, inclusive quando o ser humano está cansado, pressionado, distraído ou diante de uma situação inesperada.
A organização do trabalho se parece muito com esse carro.
O trabalhador pode ser competente. O servidor pode ser comprometido. O gestor pode ser experiente. O RH pode ser responsável. A equipe pode ter vocação pública, senso de entrega e compromisso com resultados. Mas, se o sistema organizacional opera com metas incompatíveis com os recursos disponíveis, comunicação hostil, liderança baseada no medo, ausência de escuta, jornadas excessivas, conflitos ignorados, assédio moral normalizado, insegurança sobre papéis, falta de apoio ou retorno ao trabalho mal conduzido, a organização está circulando sem dispositivos adequados de proteção.
Quando algo acontece, não basta perguntar apenas: “por que esse trabalhador adoeceu?“.
A pergunta mais estratégica é outra: o que no modo de organizar, liderar, cobrar, comunicar e responder aos sinais de sofrimento está aumentando o risco de adoecimento?
Uma organização madura não espera o acidente para revisar o carro. Não espera o afastamento para olhar a carga de trabalho. Não espera a denúncia para discutir assédio moral. Não espera a perícia para perceber que a cultura está adoecendo pessoas. Não espera a ruptura para construir canais de escuta.
E talvez esta seja a pergunta que deve acompanhar gestores, lideranças, RH, órgãos de controle, sindicatos, instituições públicas e empresas privadas nos próximos anos: que tipo de sistema de trabalho estamos colocando as pessoas para dirigir todos os dias?
*Valdiney A. de Arruda é administrador, especialista em Políticas Públicas e Questão Ambiental, MBA em ESG. Atua com Direito do Trabalho, Saúde e Segurança Ocupacional, e desenvolve estudos em Neurociência, Desenvolvimento Humano e Comunicação Não Violenta
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