“cristianizado”
Sem o apoio da cúpula do PP e com forte rejeição no eleitorado feminino, a união sonhada pelo clã Bolsonaro desmorona antes mesmo de nascer
BRASIL
Na política brasileira, ser “cristianizado” significa ser abandonado pelo próprio partido ou por seus principais líderes durante campanha eleitoral. Isso ocorre quando a legenda mantém a candidatura formalmente, mas, nos bastidores, desvia o apoio, a estrutura e os votos para um adversário com mais chances de vitória.
O termo é um neologismo que nasceu nas eleições presidenciais de 1950. O candidato do Partido Social Democrático (PSD) era o mineiro Cristiano Machado. Ao longo da disputa, a maior parte dos caciques e das bases do PSD percebeu a força avassaladora de Getulio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O partido traiu Machado, votando em Getulio, que acabou se elegendo.
Desde então, o folclore político brasileiro incorporou a expressão para definir episódios clássicos de infidelidade partidária ou de rejeição de alianças que seriam naturais. Em 1989, como candidato do PMDB à Presidência da República, Ulysses Guimarães foi abandonado por seu partido, que preferiu apoiar Fernando Collor.
Deu-se o mesmo, naquela eleição, com Aureliano Chaves, mineiro como Cristiano Machado e ex-vice-presidente de João Figueiredo — o último general a presidir o Brasil na ditadura militar de 1964. Chaves foi largado de mão pelo PFL, que ajudou Collor a se eleger no segundo turno, derrotando Lula, candidato a presidente pela primeira vez.
O Partido Liberal (PL), que abriga a família Bolsonaro, continua firme e forte ao lado de Flávio, o primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe militar. No entanto, partidos de direita que naturalmente poderiam apoiar Flávio fogem dele como “o diabo da cruz”, por descrença em sua vitória.
O candidato escolhido por seu pai está à caça de uma mulher que aceite ser vice em sua chapa. As mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro, e uma parcela expressiva delas afirma que não votaria em Flávio de jeito nenhum. Até que apareceu uma alternativa: a senadora Tereza Cristina, do Progressistas (PP) de Mato Grosso do Sul, que topou examinar a ideia.
No governo de Jair Bolsonaro, Tereza foi ministra da Agricultura e deixou o cargo aclamada pelo agronegócio e pelo mercado financeiro. Ela tem mais quatro anos de mandato e poderia dar-se ao luxo de concorrer à Vice-Presidência, retornando ao Senado em caso de derrota. Mas seu partido não quer, e ela já foi devidamente informada a respeito.
A maioria dos dirigentes do PP, consultados pelo senador Ciro Nogueira, presidente da sigla, é contra coligar-se com o PL de Flávio. Não tanto por se tratar do PL, um dos partidos do Centrão do qual o PP também faz parte. O problema central é Flávio e suas escassas chances de se eleger. De resto, o PP do Nordeste caminha com Lula, inclusive Nogueira, embora ele não confesse.
A “cristianização” de Flávio está aí para quem quiser ver. A chapa Flávio-Tereza “entrou pela perna do pinto, saiu pela perna do pato; o Rei meu senhor que me conte mais quatro”.
BRASIL
PF aponta elo de Jaques Wagner com Master e suspeita de vantagens milionárias
Relatórios da Polícia Federal tornados públicos pelo ministro André Mendonça colocam Jaques Wagner (PT-BA) no centro de uma investigação sobre interesses do Banco Master no Congresso. A corporação aponta proximidade pessoal com executivos da instituição e suspeitas de benefícios ligados à atuação parlamentar.
Segundo a PF, Wagner mantinha uma relação “longa e duradoura” com Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do banco conhecido como Guga. Mensagens, viagens familiares e 74 ligações teriam criado um canal que também aproximou o senador de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master.
Entre as supostas vantagens, os investigadores citam voos, presentes, ingressos para um show de Taylor Swift e tratativas para comprar um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador. A PF suspeita que o imóvel seria destinado a Wagner por meio de fundos e empresas intermediárias, versão que ainda depende do avanço das apurações.
Os documentos também descrevem reuniões no gabinete e o acompanhamento da chamada “Emenda Master”, proposta que elevaria para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Conforme a investigação, Vorcaro enxergava Wagner como um aliado político capaz de ajudar em articulações institucionais de interesse do banco.
O senador foi alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, realizada em 18 de junho. A PF ainda monitorou por dez dias a localização aproximada de seu celular, sem acesso ao conteúdo das conversas, após autorização de André Mendonça.
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