Ana Cristina D’Assumpção
A arte de comunicar o invisível
ARTIGOS
A maioria de nós só percebe a importância das coisas quando elas deixam de existir. Poucos param para refletir sobre o caminho que a água percorre até chegar à torneira, o destino do esgoto depois que desaparece pelo ralo, a energia que ilumina a casa ao apertar um simples interruptor ou o transporte que garante o direito de ir e vir diariamente. Esses serviços são tão presentes, tão integrados à rotina, que se tornam invisíveis aos olhos da população.
O saneamento básico, a energia e o transporte público fazem parte da infraestrutura silenciosa que sustenta a vida nas cidades. Funcionam de forma contínua, planejada e técnica, geralmente longe do olhar cotidiano. E talvez por isso mesmo sejam pouco valorizados enquanto cumprem bem seu papel. Paradoxalmente, é justamente quando falham — quando falta água, quando há um apagão ou quando o ônibus não passa — que ganham protagonismo, atenção e indignação.
Comunicar o invisível é um dos maiores desafios dos serviços essenciais e, no meu dia a dia como coordenadora de comunicação da Águas Cuiabá e também responsável pela área de responsabilidade social, essa missão ganha uma dimensão ainda mais concreta. Em uma empresa que atende mais de 600 mil pessoas, comunicar vai além de informar, é lidar com expectativas, rotinas impactadas e a urgência de quem depende diretamente desse serviço.
Existe, inclusive, um contraste permanente que orienta esse trabalho: enquanto o saneamento acontece, em grande parte, debaixo da terra, de forma silenciosa e fora do campo de visão, a comunicação precisa fazer o movimento oposto: vir à superfície, ganhar clareza, estar em evidência. Tornar visível o que é estruturalmente invisível passa a ser não apenas um desafio, mas um compromisso diário.
São redes subterrâneas, estações de tratamento, sistemas complexos que garantem saúde pública, preservação ambiental e qualidade de vida. Tudo isso longe dos holofotes. Quando funciona, o benefício é coletivo; quando falha, o impacto é imediato e sentido individualmente. Essa equação torna a comunicação ainda mais desafiadora.
Existe também um componente cultural nessa invisibilidade. Historicamente, o saneamento básico no Brasil não ocupou o espaço que merece no debate público, apesar de sua relação direta com saúde, educação, dignidade e desenvolvimento. Não à toa, muitas pessoas ainda associam saneamento apenas à obra, ao transtorno momentâneo ou à conta no fim do mês — e não ao que ele evita: doenças, poluição, internações e desigualdade.
Por isso, comunicar serviços essenciais vai muito além de informar obras, manutenções ou investimentos. Trata-se de traduzir o técnico para o cotidiano, de transformar números em impactos reais, de mostrar que aquilo que não se vê é justamente o que torna a vida urbana possível.
É contar histórias que conectem o serviço ao bem-estar das pessoas, à qualidade do rio que corta a cidade, à criança que pode brincar sem risco, à família que vive com mais saúde. Comunicar o essencial é também educar, gerar consciência coletiva e construir uma relação de confiança entre empresas, poder público e sociedade. É mostrar que por trás do serviço invisível existem pessoas, tecnologia, planejamento e compromisso com o futuro das cidades.
Quando o serviço funciona, o silêncio é sinal de eficiência. Mas isso não significa ausência de história. Pelo contrário: significa que há muito a ser contado sobre o que garante que a cidade acorde todos os dias e siga em movimento.
Tenho aprendido muito nesta jornada de comunicar o invisível e a valorizar que é essencial reconhecer que o invisível sustenta tudo. E talvez o maior papel da comunicação seja justamente esse: tornar visível o que, embora não apareça, faz toda a diferença.
Ana Cristina D’Assumpção é coordenadora de comunicação e responsabilidade social da Águas Cuiabá
ARTIGOS
Trabalho está deixando muita gente doente — e a lei mudou para valer com isso
Desde o fim de maio de 2026, passou a valer uma mudança que pouca gente notou, mas que pode mexer com a rotina de empresas e trabalhadores em todo o país: as empresas agora podem ser fiscalizadas, e multadas, se não cuidarem também da saúde mental de quem trabalha.
A novidade está na NR-1, a norma que organiza as regras de segurança e saúde no ambiente de trabalho. Até pouco tempo, “risco no trabalho” era associado a máquina sem proteção, produto químico, ruído, calor. Agora, a forma como o trabalho é organizado também entra nessa conta. É o que especialistas chamam de riscos psicossociais. Não é exagero dizer que essa é uma das mudanças mais relevantes na área de segurança do trabalho dos últimos anos, ainda que tenha passado quase em silêncio.
Na prática, cobrança de metas impossíveis, jornadas sem fim e sem pausa de verdade, pressão constante e clima pesado no ambiente de trabalho deixam de ser vistos como apenas “estresse do dia a dia” e passam a ser tratados como risco, algo que a empresa precisa identificar e tentar evitar, do mesmo jeito que já fazia com riscos físicos.
Para as empresas, isso significa rever o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e incluir esses fatores de forma real, olhando para a própria rotina, o setor de atuação e o perfil das equipes. Cada empresa precisa entender onde, de fato, estão os pontos de pressão dentro da sua operação.
Como advogada trabalhista, tenho visto cada vez mais casos de pessoas que adoeceram por causa do trabalho — ansiedade, depressão, esgotamento, o tal burnout. Até pouco tempo, esses casos costumavam ser tratados como problema pessoal de quem não aguentou a pressão. Com essa mudança na NR-1, existe agora uma base mais clara para discutir, inclusive na Justiça, se a empresa fez ou não a sua parte para evitar esse adoecimento.
No fim das contas, a mudança tende a ser boa para os dois lados: empresas que se organizam evitam multas, processos e perda de bons profissionais; trabalhadores ganham mais respaldo para buscar seus direitos quando o ambiente de trabalho passa do limite do razoável. É um tema que, cedo ou tarde, vai aparecer na rotina de qualquer empresa — e quanto antes for tratado com seriedade, menores os riscos para todos os envolvidos.
*Giselle Saggin – Advogada trabalhista (OAB/MT 14.129-A), com escritório em Cuiabá (MT) – Instagram: @gisellesaggin
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