Lucas Rodrigues
Lições do “Menino Ney” para as eleições de 2026
ARTIGOS
Faça o seguinte exercício: quais as primeiras coisas que surgem na sua memória quando alguém fala o nome Neymar, uma das figuras mais conhecidas do país?
Provavelmente, de imediato, surge Neymar enquanto jogador de futebol com grande reconhecimento. Em seguida, as constantes lesões. E, logo atrás, as polêmicas: festas madrugada adentro (estando ele solteiro ou casado), infidelidade conjugal, brigas nas redes sociais com outras figuras da mídia e até anônimos, envolvimento com pessoas de caráter duvidoso e uma postura muito distante da grandeza que conquistou enquanto jogador.
Não é à toa que Neymar continua sendo chamado de “menino Ney” para amenizar sua vida fora dos campos. É um homem feito, mas com comportamento de adolescente. Uma celebridade dentro de campo, porém com atitudes de subcelebridade fora dele. Fatores decisivos para que 52% da população queira ele fora da Seleção Brasileira, segundo pesquisa do Instituto Real Time Big Data divulgada no ano passado.
Façamos a engenharia reversa. Por que são esses fatos — e não outros — que surgem em nossa mente quando o assunto é Neymar? Simples: foram os mais presentes, constantes e repetitivos ao longo da sua trajetória pública.
Esse é um princípio básico do marketing, repetido há décadas por autores como Phlip Kotler: repetição gera reconhecimento, e reconhecimento gera confiança. Marcas fortes não são as que aparecem uma vez, mas as que aparecem de forma consistente, com a mesma mensagem, até se tornarem inevitáveis na cabeça do público.
Agora troque “marca” por “pessoa pública”. Neymar não é considerado um grande jogador porque fez meia dúzia de gols, e sim porque construiu essa percepção ao longo de anos, com consistência e repetição de desempenho. Da mesma forma, não é visto como “menino Ney” por um deslize isolado, mas por uma sequência volumosa e constante de comportamentos e escândalos que reforçam essa imagem.
O que vale para o Neymar vale para qualquer um. Especialmente para quem está na esfera pública e pretende disputar um mandato nas eleições. Reputação não é o que você fala sobre você. É o que as pessoas lembram quando ouvem seu nome.
E essa lembrança tem um pilar essencial, que é aquilo que você comunica de forma constante. Se há anos você fala sobre gargalos no sistema de saúde e aponta soluções, o período eleitoral não cria autoridade, mas amplifica a autoridade que você já construiu.
Agora, se você nunca tocou nesse assunto e decide, do absoluto nada, virar o paladino da saúde 45 dias antes da eleição… vai parecer mero oportunismo.
A reputação é uma construção de médio e longo prazo. Exige comunicação profissional, estratégica e, acima de tudo, constante. Não existe reputação fast-food. Não existe reputação como projeto de campanha.
O ano eleitoral aproxima você do eleitor. A pré-campanha potencializa sua mensagem. Mas, na hora do voto, meu amigo, o eleitor escolhe quem ele conhece, confia e gosta.
E conseguir isso leva tempo. Muito mais do que 45 dias. Se você é candidato e vai deixar pra comunicar só nos acréscimos do segundo tempo, corre o mesmo risco que o Neymar: o de não ser convocado. Só que, no seu caso, pelo eleitor.
*Lucas Rodrigues é especialista em Assessoria de Imprensa, Marketing Digital e Gestão de Redes Sociais, com foco em comunicação política, eleitoral e de mandato
ARTIGOS
O Projeto de Transposição do Rio São Francisco e o Negacionismo Científico na Gestão Hídrica
A negação de evidências científicas no contexto da gestão de recursos hídricos implica riscos sistêmicos significativos, sobretudo em regiões historicamente marcadas pela escassez de água. O Projeto de Transposição do Rio São Francisco, concebido com o objetivo de abastecer aproximadamente 12 milhões de pessoas e irrigar cerca de 350 mil hectares no Nordeste setentrional, ilustra de forma emblemática as consequências da desconsideração de limites ambientais e diagnósticos técnicos consolidados.
Desde sua concepção, o projeto apresentou fragilidades estruturais, destacando-se a insuficiente consideração da capacidade volumétrica do rio frente a uma demanda hídrica crescente. Ainda persiste, em parcela da sociedade brasileira, a percepção equivocada de que os recursos hídricos do São Francisco são virtualmente inesgotáveis, o que contribui para práticas de uso indiscriminado. Contudo, evidências empíricas indicam que não há segurança hídrica suficiente na bacia para atender simultaneamente às múltiplas demandas existentes.
As mudanças climáticas, amplamente documentadas na literatura científica, associadas à degradação ambiental decorrente de ações antrópicas — como desmatamento, lançamento de efluentes e uso intensivo da água — têm provocado redução significativa da vazão do rio. Estimativas apontam uma diminuição de aproximadamente 35% nos últimos 50 anos, configurando um cenário de crescente vulnerabilidade hídrica e exigindo medidas urgentes de revitalização.
Transposição do São Francisco. Imagem: João Suassuna
Planejamento
Esse diagnóstico não é recente. Em 2004, especialistas reunidos pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) já indicavam limitações críticas à viabilidade hídrica do projeto. À época, estimava-se uma vazão alocável de 360 m³/s, com 335 m³/s já comprometidos, restando apenas 25 m³/s disponíveis para a transposição — valor significativamente inferior à demanda média prevista de 65 m³/s, com picos de até 127 m³/s.
Diante dessa limitação, a operação inicial do sistema foi realizada com vazões reduzidas, sendo 11 m³/s no Eixo Leste e 14 m³/s no Eixo Norte. A complementação da vazão dependeria do uso de volumes armazenados na represa de Sobradinho, condicionada a níveis próximos de sua capacidade máxima. Entretanto, estudos indicam que tais condições ocorrem em apenas cerca de 40% dos anos hidrológicos, o que evidencia a inconsistência entre o planejamento do projeto e a disponibilidade hídrica real.
Importa ressaltar que eventos de seca não constituem a causa primária da crise hídrica na bacia, mas sim fatores que intensificam problemas estruturais relacionados à gestão inadequada dos recursos hídricos, especialmente no que se refere à exploração de aquíferos no médio curso da bacia. A regulação artificial das vazões, após a construção de barragens como Três Marias e Sobradinho, alterou significativamente o regime hidrológico do rio, reduzindo sua vazão média na foz de aproximadamente 2.850 m³/s para cerca de 1.850 m³/s, com tendência de declínio.
Conflitos
Esse novo regime tem gerado conflitos distributivos e operacionais. No Eixo Norte da transposição, por exemplo, a alocação de água entre estados revelou tensões políticas e inconsistências técnicas, incluindo a previsão de expansões de vazão incompatíveis com a disponibilidade hídrica. Ademais, princípios fundamentais de gestão integrada, como a sinergia entre reservatórios, não foram plenamente observados, resultando em prejuízos a sistemas locais de abastecimento.
A intensificação da atividade agrícola na região do MATOPIBA, com destaque para a exploração do aquífero Urucuia — essencial para a recarga do São Francisco —, tem agravado o rebaixamento do nível freático e a redução das vazões de base. Esse processo contribuiu para episódios críticos, como o registrado entre 2015 e 2017, quando o reservatório de Sobradinho atingiu níveis próximos de 1% de sua capacidade.
Os impactos da redução da disponibilidade hídrica também se manifestam em outros setores. Na geração de energia, usinas hidrelétricas operam abaixo de sua capacidade instalada devido à insuficiência de vazão. Na foz do rio, observa-se o avanço da cunha salina, comprometendo o abastecimento urbano. Ecossistemas aquáticos são igualmente afetados, com prejuízos à reprodução de espécies e à biodiversidade, agravados pela ausência de mecanismos adequados ao trânsito de peixes.
Adicionalmente, a poluição hídrica decorrente do lançamento de esgotos urbanos compromete a qualidade da água, ampliando os desafios de abastecimento. Aspectos socioculturais também são impactados, como evidenciado pela necessidade de intervenções artificiais para viabilizar manifestações tradicionais dependentes do regime natural do rio.
Abordagem sistêmica
Diante desse panorama, torna-se evidente a inexistência de segurança hídrica suficiente na bacia do São Francisco para sustentar, de forma equilibrada, suas múltiplas demandas. Impõe-se, portanto, a necessidade de um planejamento rigoroso e integrado, que estabeleça prioridades claras de uso da água e incorpore mecanismos de adaptação às variabilidades climáticas.
Mais do que intervenções pontuais, é fundamental adotar uma abordagem sistêmica que articule gestão, planejamento e revitalização da bacia hidrográfica. A sustentabilidade do Rio São Francisco depende de uma mudança paradigmática, que substitua a lógica de exploração intensiva por uma cultura de uso racional e convivência com os limites ecológicos do recurso hídrico.
Distribuído pelo Conselho Científico Agro Sustentável – O artigo é opinião pessoal do acadêmico e não necessariamente reflete a opinião da ABCA.
*João Suassuna é Engenheiro Agrônomo, Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e Membro Titular da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica – ABCA.
Mini Currículo de João Suassuna
Engenheiro agrônomo, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e membro efetivo das Academias Pernambucana e Brasileira de Ciência Agronômica. Especialista em questões de convivência com o Semiárido, destaca-se por apresentar propostas concretas para mudar a relação do homem nordestino com seu ambiente natural. Defensor da ideia de que não é necessário transformar o Semiárido, mas sim se adaptar a ele, João Suassuna propõe inovações para a prática de convivência na agricultura, pecuária e, sobretudo, para o uso da água na região. Destaca-se também por seu conhecimento sobre a hidrologia do Nordeste semiárido, posicionando-se contrário à transposição das águas do Rio São Francisco.
Sobre o CCAS
O Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo (SP), com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.
O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.
Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.
A agricultura, por sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. Não podemos deixar de lembrar que a evolução da civilização só foi possível devido à agricultura. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa, assim como a larga experiência dos agricultores, seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça. Mais informações no website: Link. Acompanhe também o CCAS nas redes sociais:
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