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POLITÍCA NACIONAL

Agências alertam para impactos de cortes orçamentários na fiscalização

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POLITÍCA NACIONAL

A redução de recursos das agências reguladoras pode ameaçar a capacidade do Estado de fiscalizar serviços essenciais, garantir segurança jurídica aos contratos e atrair investimentos em infraestrutura. O alerta foi feito durante audiência pública da Comissão de Infraestrutura (CI) nesta terça-feira (16), quando dirigentes de órgãos reguladores falaram sobre os impactos dos contingenciamentos orçamentários sobre áreas como energia, transportes, mineração, aviação civil e recursos hídricos. 

O bloqueio orçamentário imposto pelo Decreto 12.990, de 2026, atinge o funcionamento dos órgãos reguladores federais dos setores de infraestrutura. Segundo o requerimento para a audiência, o governo ampliou o bloqueio de despesas discricionárias do Executivo para R$ 23,7 bilhões, atingindo diretamente órgãos responsáveis pela regulação e fiscalização de áreas estratégicas como energia, petróleo, mineração, telecomunicações, transportes, aviação civil e recursos hídricos.

Autor do REQ 58/2026 – CI, o presidente do colegiado, senador Marcos Rogério (PL-RO), afirmou que os sucessivos bloqueios orçamentários comprometem a autonomia das agências. Segundo ele, embora a legislação assegure independência técnica e administrativa a essas instituições, as restrições orçamentárias acabam limitando sua atuação na prática.

O senador defendeu a aprovação do PLP 73/2025, de autoria do senador Laércio Oliveira (PP-SE), que impede o contingenciamento de recursos das instituições reguladoras federais. Relator da proposta, Marcos Rogério argumentou que a medida é necessária para preservar a segurança jurídica e regulatória do país.

— O investidor que aporta capital numa concessão de 30 anos não está comprando um ativo, está comprando uma promessa institucional. A promessa de que as regras serão estáveis, os contratos serão respeitados e haverá uma instância técnica independente capaz de arbitrar conflitos com imparcialidade — afirmou.

Marcos Rogério também alertou para os efeitos dos cortes sobre a fiscalização de serviços públicos e atividades econômicas. Segundo ele, nos últimos dez anos o orçamento das agências caiu 25%, enquanto o quadro de servidores foi reduzido em 13%. Para o senador, a diminuição dos recursos pode comprometer o monitoramento de setores como energia, mineração, combustíveis e transportes, com reflexos diretos para a população.

O senador Wellington Fagundes (PL-MT) se somou às críticas. Para ele, é inadmissível que órgãos tão fortes e com autonomia financeira já estabelecida estejam, atualmente, dependentes de realocação orçamentária de ministérios. 

— Hoje nós temos mais de 11 mil obras paralisadas no Brasil e isso demonstra a ineficiência da aplicação do recurso público. E as agências reguladoras têm exatamente esse papel de procurar trazer eficiência. 

O projeto em tramitação no Senado chegou a ser pautado pela comissão para análise na reunião desta terça-feira (16), mas um pedido de vista por orientação do governo adiou a votação. Sem a participação de outros senadores governistas no debate, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) informou que, para a equipe econômica, a “blindagem [ao orçamento das agências] engessaria a execução do orçamento” e limitaria os mecanismos para o cumprimento das metas fiscais. 

— O contingenciamento é um mecanismo essencial para adequar a execução da despesa à frustração das receitas para cumprir as metas fiscais estabelecidas na Lei de Diretrizes Orçamentárias.

A CI começou a analisar o projeto no início da tarde desta terça.

Capacidade de atuação 

Representando o Comitê das Agências Reguladoras, o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Guilherme Theo Sampaio, afirmou que a discussão sobre a autonomia financeira não diz respeito a um governo específico, mas à capacidade do Estado de executar políticas públicas e garantir direitos à população. Segundo ele, os bloqueios e contingenciamentos orçamentários recorrentes desde 2021 têm prejudicado a recomposição dos quadros de pessoal, os investimentos em inovação tecnológica e as atividades de fiscalização.

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Sampaio lembrou que a Lei Geral das Agências Reguladoras buscou fortalecer a autonomia dessas instituições e citou outras iniciativas recentes com o mesmo objetivo, como a destinação de emendas parlamentares para reforçar as atividades dos órgãos e a inclusão, na Lei de Diretrizes Orçamentárias, de dispositivo que vedava o contingenciamento de recursos dos órgãos reguladores. O trecho, no entanto, foi posteriormente vetado pelo presidente da República.

O diretor da ANTT também destacou o aumento das responsabilidades atribuídas às agências, especialmente no setor de transportes. Segundo ele, a expansão das concessões rodoviárias exige mais investimentos em tecnologia, pessoal e capacidade de fiscalização.

— Em 2021, tínhamos 12 mil quilômetros de rodovias concedidas, distribuídos em 22 contratos. Finalizaremos este ano com 44 contratos e 19 mil quilômetros de rodovias concedidas. No ano que vem, com o plano de concessões em andamento, chegaremos a 25 mil quilômetros, o equivalente a um terço da malha rodoviária federal sob responsabilidade da iniciativa privada — afirmou.

Para Sampaio, esse cenário reforça a necessidade de garantir estabilidade, previsibilidade e segurança institucional para que as agências consigam acompanhar a ampliação dos serviços regulados.

A diretora-presidente interina da Agência Nacional de Águas (ANA), Larissa Oliveira Rêgo, afirmou que o órgão regulador vive o mais grave cenário orçamentário de sua história. Segundo ela, os R$ 44 milhões bloqueados comprometem 40% das atividades de monitoramento de barragens e podem levar à interrupção, a partir de setembro, da rede hidrometeorológica nacional, formada por mais de 4,5 mil estações. A diretora alertou que os cortes ocorrem em um momento de elevado risco hidrológico e podem prejudicar a prevenção e a resposta a eventos extremos, como secas e inundações, como o El Niño. 

— A ANA será obrigada a interromper, a partir de setembro, a operação de rede hidrometrológica composta por mais de 4,5 mil estações de monitoramento em todo território nacional. Essa rede sustenta o planejamento da rede elétrica, a segurança da navegação interior,  o abastecimento público e, sobretudo, o alerta de desastres utilizado pelas defesas civis para salvar vidas. Sem esses dados o Brasil perde a capacidade de oferecer respostas a esses eventos extremos.

Impactos internacionais 

Os dirigentes também alertaram para os reflexos dos contingenciamentos na imagem do Brasil perante investidores e organismos internacionais. Segundo eles, a falta de previsibilidade orçamentária e de segurança jurídica pode afastar investimentos e comprometer projetos de expansão da infraestrutura.

— Nós estamos sendo regularmente procurados por blocos econômicos, por países individualmente para entender como é a nossa mecânica no setor de mineração, e não adianta a gente fazer todo esse esforço de convencimento, de atração de investimento, se nós não damos as condições ideais para que a Agência Nacional de Mineração [ANM] possa se desincumbir adequadamente do seu mister institucional e garantir que esses investimentos tenham uma acolhida — afirmou o diretor-geral da ANM, Mauro Henrique Moreira Sousa.

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Segundo ele, a agência acumula cerca de 15 mil processos pendentes por falta de estrutura para analisá-los e liberar novas lavras.

O diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Tiago Chagas Faierstein, informou que a agência perdeu cerca de 70% do orçamento desde 2015. Segundo ele, os cortes sucessivos afetam a confiança de organismos internacionais responsáveis por avaliar a segurança da aviação civil brasileira.

Faierstein argumentou ainda que os contingenciamentos podem reduzir a arrecadação federal ao limitar atividades como a certificação de aeronaves. Segundo ele, atrasos nesse processo afetam a operação de aeronaves, a comercialização de equipamentos pela indústria aeronáutica e a geração de tributos. 

— Nós não somos contra o governo fazer meta fiscal, nós devemos sim parabenizar o governo por querer cumprir a meta, querer manter a saúde financeira, o que nós estamos questionando é que será que dentro desse corte as agências precisam ser tão sacrificadas antes a outras áreas do governo?

A mesma argumentação foi colocada pela diretora-geral substituta da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Agnes Maria de Aragão da Costa, e pelo diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Artur Watt Netto. 

— A gente reduziu em 80% o nosso orçamento. Somente no programa de fiscalização da qualidade de combustível o impacto foi de 50%, saindo de R$ 55 milhões para R$ 25 milhões — informou Watt Netto. 

TCU e plano de ação 

O assunto teve repercussão também no Tribunal de Contas da União (TCU). A corte publicou o Acórdão 280/2026 determinando que a Casa Civil apresente um plano de ação para efetivar a autonomia financeira das agências reguladoras, garantindo verbas suficientes para custeio e fiscalização de autarquias como Aneel, ANP, ANM e Anatel.

O TCU reconheceu que os cortes orçamentários e contingenciamentos dos últimos dez anos têm prejudicado a capacidade fiscalizatória e administrativa das agências. O acórdão foi alvo de recurso e, neste momento, sua discussão está em curso no TCU. 

O auditor-chefe da Auditoria Especializada em Energia Elétrica e Nuclear do TCU, Marcelo Leite Freire, afirmou que a corte tem preocupação com as contas públicas e com a responsabilidade fiscal. Mas ele também disse que é preciso buscar um maior planejamento para que as atividades das reguladoras não sejam comprometidas. 

— Uma proposta de melhor planejamento tem o seu lugar porque permite que aquilo que se almeja com a atuação das agências reguladoras seja alcançado da melhor maneira possível. 

O bloqueio orçamentário do Executivo passou de R$ 1,6 bilhão para R$ 23,7 bilhões no segundo bimestre de 2026.

As agências reguladoras sofreram cortes específicos, como:

  • ANTT: R$ 57 milhões;
  • Anatel: R$ 51,8 milhões;
  • ANA: R$ 44,9 milhões;
  • ANP: R$ 38,1 milhões;
  • Aneel: R$ 34,3 milhões;
  • Anac: R$ 24 milhões;
  • ANM: R$ 22,7 milhões;
  • Antaq: R$ 14,3 milhões. 

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Representantes de movimentos populares pedem aprovação de regras sobre autogestão habitacional

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Em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, representantes de movimentos populares por moradia defenderam a aprovação de projeto de lei que regulamenta o sistema de autogestão habitacional (PL 20/20). A representante da União Nacional por Moradia Popular, Evaniza Lopes Rodrigues, afirmou que o excesso de burocracia atualmente dificulta o financiamento de residências nesse modelo.

Ela lembrou que o programa Minha Casa, Minha Vida já permite financiamento para associações ou cooperativas construírem seus próprios empreendimentos, mas que somente 7% das 3 milhões de moradias novas previstas pelo governo para o atual mandato foram destinadas a projetos de autogestão habitacional.

“A prática da autogestão não é só execução, mas a capacidade de tomar decisões coletivamente, de gerir coletivamente a produção da casa e, depois, a gestão daquela comunidade. E isso, aos longos dos últimos quase 40 anos, gerou conjuntos habitacionais que têm um diferencial muito grande, tanto na sua qualidade construtiva, de projeto, quanto também de organização de permanência, de vínculo das famílias que vão viver naquele lugar”, disse Evaniza Rodrigues.

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Projeto de lei
A proposta em análise na Câmara tem como relator o deputado Padre João (PT-MG), que pediu a realização do debate. O texto prevê a propriedade coletiva dos empreendimentos habitacionais por meio de associação ou cooperativa.

O objetivo da medida, segundo os participantes da audiência, é facilitar o acesso das famílias à moradia, já que muitas vezes elas não conseguem financiamento. Além disso, eles destacam que esse modelo estimula a continuidade da organização coletiva dos moradores.

Para o coordenador da Central de Movimentos Populares, Benedito Roberto Barbosa, é necessário financiamento integral por parte do governo federal. De acordo com ele, a lei hoje exige contrapartidas de prefeituras ou governos estaduais, que muitas vezes não fazem essa complementação e inviabilizam a execução de projetos aprovados.

Compra de terrenos
Padre João questionou os participantes sobre a viabilidade de incluir na proposta de lei a previsão de financiamento também para a compra de terrenos onde há ocupações e conflito fundiário.

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“Tem uma realidade que eu não sei se a gente conseguiria contemplar com a readequação do projeto, que é quando tem ocupações, às vezes de 10, 15, 20 anos, que estão judicializadas, mas que tem abertura para vender, e a demanda não é recurso para a construção, mas para adquirir o imóvel. Temos que levantar essa situação, se teria como”, questionou.

Na opinião dos representantes de movimentos sociais por moradia, incluir previsão de financiamento para comprar esses terrenos é perfeitamente viável. Uma alternativa, de acordo com Benedito Barbosa, é prever que, nesse caso, a posse da propriedade será da associação ou cooperativa.

O coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela, Marcelo Toyansk Guimarães, lembrou que atualmente 6 milhões de famílias precisam de uma moradia no Brasil, e 26 milhões vivem em habitações inadequadas.

Reportagem – Maria Neves
Edição – Ana Chalub

Fonte: Câmara dos Deputados

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