GABRIEL NOVIS NEVES
Desejos ocultos
ARTIGOS
Havia uma lata de biscoitos guardada no alto do armário.
Sabíamos exatamente onde ficava.
Minha mãe dizia que era para as visitas.
Mesmo assim, às vezes conseguíamos um escondido.
O gosto parecia melhor justamente porque vinha acompanhado de risco.
Quantos riscos atravessei ao longo da caminhada.
Um deles, foi quando minha vida esteve na ponta de uma arma, bem distante daqui.
Outros ficaram apenas na ameaça.
Chamava tudo isso de estripulias da juventude.
Andava em favelas perigosas prestando assistência médica.
Frequentava bairros distantes, marcados pela violência.
Trabalhei em hospitais na Penha, na Ilha do Fundão e em Jacarepaguá.
Namorar escondido também era arriscado.
Tudo que é proibido tem sabor de aventura.
Ir ao cinema e temer o lanterninha flagrar um beijo roubado.
Ou namorar na sala, enquanto os pais da moça saiam para uma visita rápida nas proximidades.
Nessas horas, eu pensava na lata de biscoito lá de casa, escondida no alto do armário.
As grandes emoções nascem do risco — e como são desejadas!
A tempestade a bordo de um avião é risco puro, que se transforma em imensa felicidade quando pousamos em segurança.
Dizem até que o melhor da viagem é chegar em casa e tirar os sapatos.
O risco muda o sabor das coisas.
Torna-as mais intensas.
Nós nascemos da união de duas células —uma masculina e outra feminina.
Cada vez que penso no processo da reprodução humana, mais acredito no milagre que é existir. O gosto do risco parece sempre superar o medo.
Talvez por isso o mundo continue a se multiplicar.
No reino animal, em certas espécies, o risco da procriação é fatal.
Ainda assim, a vida insiste.
Desde que há vida, é assim.
E continuará sendo.
Como a lata de biscoito no alto do armário — sempre guardada, sempre tentadora, sempre nos ensinando que o sabor aumenta quando há um pouco de risco.
Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado
ARTIGOS
Trabalho está deixando muita gente doente — e a lei mudou para valer com isso
Desde o fim de maio de 2026, passou a valer uma mudança que pouca gente notou, mas que pode mexer com a rotina de empresas e trabalhadores em todo o país: as empresas agora podem ser fiscalizadas, e multadas, se não cuidarem também da saúde mental de quem trabalha.
A novidade está na NR-1, a norma que organiza as regras de segurança e saúde no ambiente de trabalho. Até pouco tempo, “risco no trabalho” era associado a máquina sem proteção, produto químico, ruído, calor. Agora, a forma como o trabalho é organizado também entra nessa conta. É o que especialistas chamam de riscos psicossociais. Não é exagero dizer que essa é uma das mudanças mais relevantes na área de segurança do trabalho dos últimos anos, ainda que tenha passado quase em silêncio.
Na prática, cobrança de metas impossíveis, jornadas sem fim e sem pausa de verdade, pressão constante e clima pesado no ambiente de trabalho deixam de ser vistos como apenas “estresse do dia a dia” e passam a ser tratados como risco, algo que a empresa precisa identificar e tentar evitar, do mesmo jeito que já fazia com riscos físicos.
Para as empresas, isso significa rever o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e incluir esses fatores de forma real, olhando para a própria rotina, o setor de atuação e o perfil das equipes. Cada empresa precisa entender onde, de fato, estão os pontos de pressão dentro da sua operação.
Como advogada trabalhista, tenho visto cada vez mais casos de pessoas que adoeceram por causa do trabalho — ansiedade, depressão, esgotamento, o tal burnout. Até pouco tempo, esses casos costumavam ser tratados como problema pessoal de quem não aguentou a pressão. Com essa mudança na NR-1, existe agora uma base mais clara para discutir, inclusive na Justiça, se a empresa fez ou não a sua parte para evitar esse adoecimento.
No fim das contas, a mudança tende a ser boa para os dois lados: empresas que se organizam evitam multas, processos e perda de bons profissionais; trabalhadores ganham mais respaldo para buscar seus direitos quando o ambiente de trabalho passa do limite do razoável. É um tema que, cedo ou tarde, vai aparecer na rotina de qualquer empresa — e quanto antes for tratado com seriedade, menores os riscos para todos os envolvidos.
*Giselle Saggin – Advogada trabalhista (OAB/MT 14.129-A), com escritório em Cuiabá (MT) – Instagram: @gisellesaggin
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