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Márcio Florestan Berestinas

Quem mal lê, mal sabe, mal ouve, mal vê

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ARTIGOS

Mato Grosso cresce, mas ainda precisa formar seus leitores

Há frases que parecem tão evidentes que passam despercebidas. “Quem mal lê, mal sabe, mal ouve, mal vê” é uma delas. À primeira vista, soa apenas como uma recomendação em favor dos livros, mas contém um diagnóstico incômodo: a deficiência de leitura não limita somente o que sabemos; compromete também a maneira como compreendemos aquilo que ouvimos, vemos e escolhemos.

Não estamos falando apenas de romances e bibliotecas, mas também da bula do remédio, do contrato bancário, da intimação judicial, da notícia no celular e da promessa eleitoral. Entre o cidadão e seus direitos existe quase sempre um texto. Quem não o compreende precisa aceitar a interpretação alheia — e nem todo intérprete, convenhamos, é movido pela caridade.

Não basta reconhecer as palavras. É possível atravessar uma página inteira sem perceber o argumento, a ironia, a omissão ou o interesse de quem escreveu. A alfabetização decifra o texto; a leitura efetiva permite desconfiar dele. Uma abre a porta; a outra nos ensina a descobrir quem está tentando entrar.

Em Mato Grosso, esse alarme soa de forma estridente. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que apenas 36% dos mato-grossenses leram ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. É o pior resultado do Centro-Oeste e o segundo pior do país, à frente somente do Rio Grande do Norte.

Detenhamo-nos por um instante nesse número. Em um estado que se orgulha de bater recordes econômicos, quase dois em cada três habitantes não haviam lido sequer parte de um livro no período pesquisado. Podemos celebrar safras e exportações, mas que futuro construiremos se a expansão material não vier acompanhada do desenvolvimento intelectual?

A penúltima posição nacional não é mera curiosidade estatística. É um chamado urgente ao Governo do Estado, aos municípios, às escolas, às universidades, ao sistema de Justiça, às empresas, às famílias e a cada um de nós.

Quem lê mal não terá dificuldade apenas na aula de português. Terá problemas para interpretar uma questão de matemática, acompanhar uma explicação de ciências ou seguir instruções técnicas. A leitura é o chão sobre o qual as outras disciplinas caminham.

Sem ela, o estudante acumula lacunas. Muitas vezes, é tachado de desinteressado, indisciplinado ou incapaz quando está apenas perdido diante de uma linguagem que a escola pressupõe que ele domine. À medida que os textos se tornam mais complexos, sua dificuldade aumenta. A vergonha vira silêncio; o silêncio, afastamento; e o afastamento, por vezes, abandono.

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Esse déficit não termina com a formatura, quando ela acontece. O adulto com baixa proficiência leitora encontra mais dificuldades para aprender novas tecnologias, interpretar normas de segurança, compreender documentos e participar de cursos de capacitação. A limitação que começou na sala de aula reaparece no trabalho, na renda e na liberdade de escolher um caminho.

Mato Grosso conhece bem essa contradição. Temos uma economia dinâmica, mas parte das vagas permanece aberta por falta de profissionais qualificados. Em julho de 2026, dados do Imea e do Senar-MT mostraram que quase 70% dos produtores rurais apontaram a falta de qualificação técnica como o principal entrave para contratar.

Seria exagero atribuir toda essa carência à deficiência de leitura. Mas não existe qualificação consistente sem a capacidade de compreender textos, manuais, sistemas e procedimentos. Não se trata apenas da ausência de leitura literária, mas também, por exemplo, da dificuldade para interpretar os comandos de uma máquina agrícola de última geração.

A vaga existe. O candidato também. E ambos podem permanecer separados por uma deficiência iniciada muitos anos antes, diante de uma página que não foi compreendida.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, ajuda a dimensionar o impacto do problema. Relatórios recentes mostram que quase um em cada três adultos nas economias avaliadas possui fragilidades fundamentais em leitura ou matemática. Esses adultos tendem a apresentar piores resultados de emprego, renda, saúde, confiança social e participação cívica.

As desvantagens não aparecem isoladamente. Acumulam-se ao longo da vida e, muitas vezes, alcançam a geração seguinte. Pais com baixa proficiência leitora costumam ter mais dificuldades para acompanhar a educação dos filhos, auxiliá-los nas atividades escolares e inseri-los em ambientes nos quais os livros façam parte da vida cotidiana. A deficiência deixa, então, de ser apenas individual e passa a reproduzir-se socialmente.

É significativo que nações como Finlândia e Japão tenham tratado a formação intelectual como parte estrutural de seu desenvolvimento. Evidentemente, nenhum país se torna desenvolvido apenas porque sua população lê. O progresso depende de instituições, ciência, estabilidade, infraestrutura e investimento. Mas uma economia moderna não se sustenta sem pessoas capazes de aprender continuamente, interpretar informações, comparar alternativas e resolver problemas.

Recursos naturais podem gerar riqueza. O conhecimento é que a transforma em progresso duradouro.

Um estado que sabe produzir grãos, carne, energia e divisas precisa também criar leitores. Do contrário, corre o risco de erguer uma economia sofisticada sem preparar parcela expressiva da população para ocupar os postos criados por ela.

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Convém agora abandonar as estatísticas e fazer uma pergunta desconfortável: e você, amigo leitor, quantos livros concluiu neste ano de 2026?

Não vale incluir mensagens, manchetes e postagens nas redes sociais. Todos nós as lemos. A pergunta se refere à leitura que exige permanência: aquela que nos obriga a acompanhar um argumento, enfrentar uma ideia contrária e sustentar a atenção enquanto o telefone, esse pequeno tirano de bolso, oferece divertimentos imediatos.

Não se trata de transformar livros em troféus de vaidade. Há quem leia cinquenta e compreenda pouco; há quem leia cinco e saia profundamente modificado de cada um. A pergunta serve apenas para expor uma contradição: costumamos defender a leitura em público e abandoná-la em particular. Reclamamos que as crianças não leem enquanto passamos a noite deslizando o dedo sobre uma tela. Exigimos concentração dos estudantes, mas já não suportamos um texto que demore mais de três minutos para chegar à conclusão.

Ao mesmo tempo, seria injusto simplesmente culpar quem não lê. Muitos conheceram os livros apenas como instrumentos de punição escolar: prova, questionário, resumo e nota baixa. Outros enfrentam jornadas exaustivas, vivem em casas sem livros ou jamais tiveram acesso a uma biblioteca acolhedora.

Não basta distribuir obras e repetir que ler é importante. É necessário criar tempo, acesso, mediação e, sobretudo, exemplo. A criança precisa ver adultos lendo. O estudante precisa enxergar no livro algo além da resposta exigida pelo professor. O trabalhador necessita de educação continuada. A pessoa idosa precisa ser convidada a permanecer intelectualmente ativa.

A leitura deve acompanhar a vida inteira: na infância, ajuda a descobrir o mundo; na maturidade, a não se deixar enganar por ele; na velhice, a continuar conversando com ele.

Os livros não resolverão sozinhos nossas desigualdades. Não construirão escolas, não substituirão professores nem eliminarão a pobreza. Mas nenhuma sociedade enfrentará seriamente seus problemas se os cidadãos não compreenderem as palavras com que eles são apresentados — e, principalmente, aquelas com que tentam escondê-los.

Quem mal lê não apenas mal sabe: também ouve sem distinguir, vê sem compreender e escolhe sem conhecer inteiramente aquilo que está escolhendo.

Em Mato Grosso, formar leitores deixou de ser apenas uma aspiração cultural. Tornou-se uma necessidade educacional, econômica e democrática. É preciso abrir livros para que não continuemos fechando portas.

*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

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ARTIGOS

Performo, logo existo. A vida virou uma prova que nunca termina

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Caro leitor,

Esses dias, estava pensando nessa mania tola que adotamos e que ganhou uma naturalidade absurda na vida da gente.

Já reparou que existe uma espécie de imperativo silencioso nessa vida contemporânea? O tal do: “dar conta”.

Que diacho é isso?

Dar conta do trabalho, dos filhos, da casa, do corpo, da saúde, do relacionamento, da aparência, da carreira, das redes sociais e, de preferência, fazer tudo isso com equilíbrio, produtividade e um sorriso no rosto.

Não basta estar bem e, às vezes, nem é necessário; o negócio é parecer bem.

No trabalho, é preciso ser produtivo. Os filhos? É preciso criar filhos emocionalmente saudáveis.

Ao envelhecer, claro, é preciso envelhecer bem.

Não basta ter uma profissão; é preciso construir uma carreira muito rentável para validar seu sucesso, e não podemos nos esquecer de que não basta viver uma experiência. É preciso registrá-la, compartilhá-la e transformá-la em conteúdo.

Uma das maiores violências dessa lógica absurda é que até o descanso passou a precisar ser produtivo.

Descansamos para voltar a produzir, fazemos exercício para melhorar a performance, meditamos para controlar a ansiedade, lemos para desenvolver competências, viajamos para proporcionar experiências e, até o hobby, pode virar renda extra.

O prazer das coisas deu espaço ao “performo, logo existo”.

O filósofo Byung-Chul Han define bem quando diz que viramos “empresários de nós mesmos”. Acontece que esse nosso eu empresário nos explora ao extremo e não fazemos nada.

Até o autocuidado, que deveria ser um espaço de encontro consigo mesmo, às vezes se transforma em mais uma cobrança. E é aí que aparece o custo emocional.

O cansaço que não passa. Aparecem a culpa por não fazer o suficiente e a sensação permanente de atraso. Passamos a ter dificuldade de simplesmente estar, de ser.

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Como dar conta de tudo? Pior, por que acreditamos que precisamos dar conta de tudo?

Nós não somos onipotentes nem onipresentes!

De onde saiu esse mandamento que seguimos sem questionar?

Uma coisa é ser responsável, é reconhecer aquilo que depende de nós; outra é acreditar, ainda que silenciosamente, que deveríamos conseguir controlar tudo. Só que ninguém consegue.

Por que transformamos a própria existência em uma sequência interminável de performances? O que acontece?

Por que passamos a carregar um avaliador cruel dentro de nós? Por que alimentamos essa coisa nociva e nem nos damos conta? Aliás, por falar em conta, ela chega alta, ascendente e contínua.

Estresse, dores, choro sem explicação aparente, doenças autoimunes, ansiedade, depressão, infarto, AVC, taquicardia, tremores, compulsões… A lista é enorme, mas seguimos firmes no nosso propósito de produtividade a qualquer custo.

Esquecemos de que somos substituíveis na nossa função na empresa, no mercado de trabalho, na vida do nosso par, no lado que ocupamos na cama em que dormimos, na casa em que habitamos… Que, um século após nossa morte, ninguém saberá absolutamente nada de nós se nossa existência não mudar de alguma forma a história da humanidade.

Quem somos nós? Um exemplar de Mahatma Gandhi? Talvez Nietzsche? Madre Teresa? Quem sabe Frida Kahlo ou Simone de Beauvoir? Gaudí? Niemeyer?

Quem é você? Quem sou eu? Apenas meros mortais com mania de importância, que achamos mesmo que o mundo colapsará sem nossa “grandiosa” contribuição.

O que colapsa é a saúde, o que passa é o tempo, e ele não tem reembolso!

Quantas vezes você já parou para cuidar desse eu que não se vê com os olhos? Quantas vezes você meditou de verdade? Quantas vezes você já se permitiu não fazer porque entendeu que não precisa dar conta? É. Tem coisas de que você não precisa dar conta!!!!

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Responsabilidade não é e não pode significar sacrifício do que é precioso. Não dar conta, deixar para amanhã, escolher outro momento não é fracasso. É amadurecimento. Há problemas que não são nossos e há lutas que não merecem nossa energia.

Penso que precisamos aprender a escolher do que vale a pena dar conta.

O tempo passa enquanto estamos ocupados tentando provar que conseguimos e, no fim, a conta não é a do trabalho que ficou por fazer, da mensagem que demorou a ser respondida, da casa que não estava impecável ou da oportunidade que deixamos passar.

A conta é o tempo que gastamos tentando ser tudo para todos, deixamos de nos cuidar e esquecemos de nós mesmos.

Algumas coisas podem esperar, algumas podem ser delegadas e outras podem simplesmente não ser feitas. E vou te lembrar de que as mais importantes precisam ser vividas sem pressa, sem plateia e sem a obrigação de produzir absolutamente nada.

A vida não é uma prova que precisamos terminar com nota máxima. É a única coisa que temos que viver antes que o tempo, esse sim, encerre a prova.

Christiane Indaiá

Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura — UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce

Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)

Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam

Certificada Cambridge

Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas

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